Sob a mesma Lua

Direção:  Patrícia Riggen

Título original: La Misma Luna

Elenco: Adrian Alonso, Kate del Castillo, Eugenio Derbez.

Ano de Produção: 2007

País de Produção: México

Gênero: Cinema Latino-Americano

Duração: 110 m

 Prepare-se. É de tirar o fôlego. A mãe mexicana vai trabalhar nos Estados Unidos, deixando o filho que, aos nove anos, cruza a fronteira, procurando a mãe. Esta é interpretada por Kate del Castillo, badalada atriz mexicana. O menino – - Carlitos – - é encantador. Destemido, enfrenta todos os perigos, entre adultos mal intencionados. O menino é um exemplo. O pano de fundo é a situação do trabalhador estrangeiro irregular nos Estados Unidos. As cenas da travessia da fronteira e das várias frentes de trabalho são de realismo intenso. E ainda que um dramalhão mexicano oxigene a trama, esta é bem armada. Não há como resistir às lágrimas, em boa parte do filme. Sob a mesma Lua foi dirigido por Patrícia Riggen, mexicana nascida em Guadalajara, em 1970, no ano que fomos tricampeões mundiais de futebol, no México.

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Cartas para Julieta

Direção: Gary Winick

Título original: Letters to Juliet

Elenco: Vanessa Redgrave, Franco Nero, Amanda Michelle Seyfried, Gael Garcia Bernal

Ano de Produção: 2010

País de Produção: Estados Unidos da América

Gênero: Comédia romântica

Duração: 105 m

 Romeu e Julieta, de William Shakespeare, é o mote e a alavanca de toda concepção romântica que possa aproximar e vincular pessoas. É o símbolo de uma atração inexplicável. É o emblema do acaso; afinal, é talvez por acaso que nos apaixonamos; e talvez seja também pelo acaso que não escolhemos quem amamos. Romeu e Julieta é a apologia do acaso: por acaso o casal se encontrou, por acaso as famílias eram inimigas, por acaso os adolescentes deixaram de saber os desígnios que para eles havia. Não por tanto acaso assim Mark Knopfler compôs Romeo and Juliet, canção também emblemática, que consagra um casal que jurava amor até a morte. Porém, é também por acaso que uma norte-americana (protagonizada pela atriz Amanda Michelle Seyfried) tentando reconstruir um noivado que nada mais dizia aos noivos, e o noivo era protagonizado pelo mexicano Gael Garcia Bernal, encontrara em Verona uma fictícia e imaginária carta de Julieta. As subscritoras eram mulheres que comungavam um ideal: o amor romântico. E não menos por acaso é que a simpática e enérgica norte-americana reaproxima Vanessa Redgrave e Franco Nero (ela, inglesa, ele, italiano, e eles mesmos casados na vida real), num roteiro cheio de surpresas. E não menos por acaso, é que também a jovem norte-americana descobre por quem seu coração batia… E isto não é acaso. É coragem. É disto que trata Cartas para Julieta, do acaso de amar, e da coragem de reconhecer que se ama. Tudo temperado com muito humor. Shakespeare se reconheceria apaixonado, a usarmos outro título de filme que se desdobra na obra do genial inglês, cuja existência alguns celerados discutem. Falta do que fazer. Melhor amar, como presente do acaso, ainda que não se tenha coragem para tanto.

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Sonhando Acordado

Diretor: Jake Paltrow

Título original: The Good Night

Elenco: Gwyneth Paltrow, Martin Freeman, Penélope Cruz, Danny DeVito

Ano de produção: 2007

País de produção: Estados Unidos da América

Gênero: Drama

Duração: 93 m

 Um roqueiro que perdeu a criatividade e cuja vida parece sem sentido, redescobre-se todas as noites, quando sonha com uma diva. Martin Freeman no papel do roqueiro. Penélope Cruz no papel da linda mulher. A esposa do roqueiro, protagonizada por Gwyneth Paltrow, parece desinteressada por tudo que se passa com o marido. O relacionamento não avança da reprodução cotidiana do lugar-comum. Nada de novo os aproxima. Nada de velho ainda os une. Um contínuo de frustrações profissionais e existenciais agita suposta monotonia, no meio de uma trilha sonora memorável. Tem-se a impressão de que o roteiro retoma o vazio da década de 90, embora a frase de abertura do filme rememore, e comemore, os anos 90, como muito interessantes. Penélope Cruz e Danny DeVito carregam o filme, cujo fim, superlativamente americano, lembra-nos que não há noites eternas e que na aventura pode-se valorizar o cotidiano. É preciso sonhar com as estrelas para ganhar o pão. O diretor, Jake Paltrow, é irmão de Gwyneth Paltrow, que lembramos do Shakespeare Apaixonado.

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O filho da noiva

Diretor: Juan José Campanella

Título original: El Hijo de la Novia

Elenco: Ricardo Darin, Hector Alterio, Norma Aleandro

Ano de produção: 2002

País de produção: Argentina

Gênero: Cinema latino-americano

Duração: 124 m

Rafael, aos 42 anos, reconhece que sua vida precisa de novos rumos. Dono de um restaurante, que herdou do pai e da mãe, fã de Don Diego de la Vega, o Zorro, também reconhece que na vida real há pouco espaço para as fantasias do justiceiro da alta Califórnia. A mãe vive num asilo, sofre de Alzheimer, e o apaixonado pai, que não se casara no religioso, pretende, após quase meio século de convívio, casar-se na Igreja. Há um problema de direito canônico, porquanto o casamento pressupõe acordo de vontades. A mãe, doente, não pode consentir… O que fazer? Este é mais um enigma, entre tantos outros, como a identidade de Dick Watson, que este sublime filme argentino nos propõe. Para os amantes da vida portenha a fotografia é um mimo. Para quem vive dilemas de escolhas o filme é um ponto de reflexão. E, principalmente, para quem acredita que o amor transcende ao tempo e aos azares da vida, o filme é uma comprovação de que nem tudo se pode, ainda quando realmente se quer, embora o pouco que temos pode ser o tudo que conseguimos. A cena do casamento é prova da assertiva.

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A Banda

Diretor: Eran Koligrin

Título original: Bikur Há-Tizmoret

Elenco: Sesson Gabai, Ronit Elkabetz, Saleh Bakri

Ano de produção: 2007

País de produção: Israel

Gênero: Cinema asiático

Duração: 87 m

Hilariante. E também muito triste. É esta contradição que faz de A Banda um filme excepcional. Uma banda militar egípcia, de Alexandria, desembarca em Israel para uma apresentação num centro cultural árabe. É a gloriosa Orquestra Cerimonial da Polícia de Alexandria. Ninguém os espera no aeroporto. Decidem resolver o problema. Não falavam hebraico e o domínio que tinham do inglês era rudimentar. Como não entenderam corretamente as informações que pediram, acabaram num local muito distante de onde pretendiam ir. Foram recebidos por uma simpática israelita, Dina, representava pela Ronit Elkabetz, que os tratou muito bem. O coronel Taufic, representado por Sassan Gabai, vai a um restaurante com Dina, e entre eles brota um relacionamento muito autêntico. E talvez porque Dina desesperadamente procurasse companhia, assim como todos nós nos sentimos solitários, é que se compõe um quadro apaixonante das possibilidades de aproximação humana, que transcende a todos os problemas, a exemplo de um relacionamento muito amistoso entre árabes e judeus. A cena final, com a banda em ação, é um prêmio para o espectador. Há uma cena que ocorre numa na pista de patins, em que sentados, uma deprimida, um envergonhado e um componente da banda dialogam, que é certamente uma das cenas mais líricas do cinema. A fotografia é encantadora. O filme foi quase todo rodado em Yeruham, no deserto de Negev, em Israel. Imperdível.

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Em Paris

Direção: Cristophe Honoré

Título original: Dans Paris

Elenco: Romain Duris, Louis Garrel, Alice Butand

Ano de Produção: 2006

País de Produção: França

Gênero: Cinema europeu

Duração: 93 m

 Uma depressão que segue a uma separação leva um dos personagens de volta à casa do pai, que vive em Paris. Reencontra o irmão, e algumas memórias de uma irmã que tinham, e que morrera precocemente. O irmão mais novo, protagonizado pelo simpático Louis Garrel, flanava entre várias mulheres, que conhecia episodicamente. O irmão deprimido encontrará numa das amigas do irmão galante a lembrança de que há sempre uma luz, e que não há noites eternas. A trilha sonora e a fotografia de Paris encantam e marcam a qualidade deste retrô do cinema francês da nouvelle vague. Romain Duris, no papel do jovem deprimido, nos lembra o europeu centralizado na realidade dos problemas existenciais. Sartre e Camus poderiam estar em alguns diálogos, ainda que nas entrelinhas, excluindo-se o ativismo político, dado o distanciamento dos irmãos para questões não idiossincráticas. A excessiva preocupação com nós mesmos parece ser uma marca de nossos tempos. Não há mais espaço para ideologias e utopias. O máximo de nosso protesto é a adesão ao vegetarianismo. E os conflitos e ambivalências indicadas neste enigmático filme parecem confirmar a afirmativa.

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A bela Junie

Direção: Cristophe Honoré

Título original: La belle personne

Elenco: Lea Seydoux, Louis Garrel, Gregoire Leprince-Ringuet

Ano de Produção: 2008

País de Produção: França

Gênero: Drama/cinema europeu

Duração: 90 m

Lea Seydoux protagoniza uma linda adolescente que se vê perdidamente apaixonada por seu professor de italiano, numa escola parisiense de curso médio. A paixão é correspondida. No entanto, a bela jovem se recusa a acreditar no amor. Tem certeza que paixões não são eternas, e que toda solidez de qualquer relacionamento não resiste ao tempo: fragmenta-se no ar. Por isso, namora um colega de sala, que por sua vez não compreenderá, mais tarde, que a encantadora colega pensa em outra pessoa. Há várias outras nuances no enredo que, explora, também com muita seriedade, a questão do homossexualismo entre adolescentes. Vale o registro do modelo educacional francês. E vale também, principalmente, o modo sério como problemas sérios são enfrentados. Não há espaço para pieguices. O jovem professor não é recriminado por se encantar pela aluna. Tem-se um caso de Romeu e Julieta muito realista, temperado pelo ceticismo da bela amada, que não acredita no amor. Receosa de ser traída, abandonada ou esquecida, ele constrói uma muralha que será o ponto central de uma biografia que se desenha. O diretor Cristophe Honoré, que também dirigiu Em Paris, é um jovem cineasta, nascido em 10 de abril de 1970 em Carhaix, na França. Honoré também é novelista e escreve livros infantis. Louis Garrel, no papel do charmoso professor, atua de modo sublime. É filho do diretor Philipe-Garrel.

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Do outro lado

Diretor: Fatih Akin

Título original: Auf der Anderen Seite

Elenco: Nurgül Yesuklçay, Baki Daurak e Tuncel Kurtiz

Ano de produção: 2007

País de produção: Alemanha

Gênero: Drama/Cinema europeu

Duração: 122 m

Em troca de muita atenção e concentração o diretor Fatih Akin oferece enredo inusitado, inquietante, intrigante, assustador. O acaso e o desencontro aproximam e afastam três famílias. Um imigrante turco que vivia na Alemanha, e seu filho, que era professor universitário. Uma prostituta de origem turca que morava na Alemanha, e sua filha, ativista política na Turquia. Uma senhora alemã, e sua filha, que cursava faculdade. São três pares, seis pessoas, cujos destinos Fatih Akin aproxima, unifica, separa, dissipa. O imigrante turco frequentará a prostituta, cuja filha por alguma razão será procurada pelo professor de alemão, que será procurado pela senhora alemã, cuja filha encontrou-se com a ativista, cuja mãe fora viver com o imigrante turco… E as combinações são infinitas, na finitude dos 122 minutos deste filme cativante. Não se veem encontros que seriam fundamentais para a libertação das culpas e preocupações que os personagens centrais carregavam. Cenas se repetem, fixando uma falta de linearidade na narrativa, o que torna a estória empolgante, na medida em que determinada cena conta com explicação apenas quando retomada. O diretor Fatin Akin nasceu em Hamburgo, tem ascendência turca, o que provavelmente justifica certo sentido memorialista que esta obra filmada em 44 dias pode ter. O desencontro que marca a existência contemporânea, bem como o deslocamento que matiza uma sociedade globalizada, são os grandes temas deste filme imperdível. Cuidado! É difícil terminar o filme com a certeza da incolumidade das próprias convicções em relação ao destino. Não sabemos o que será de nós. Fatih Akin sugere que terminaremos nossos dias olhando para o oceano, na espera de uma redenção que se diz rápida, porque nos retornaria amedrontada com um mar revolto. Mas a procura pode se dar tarde demais…

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Lemon Tree

Direção: Eran Riklis

Título original: Etz Limon

Elenco: Hiam Abbas, Doron Tavory, Ali Suliman

Ano de Produção: 2007

País de Produção: Israel

Gênero: Cinema asiático/drama

Duração: 106 m

 Hiam Abbas protagoniza Salma Zidane, uma viúva palestina que cuidava de um pomar de limões que herdara do pai. Fortes laços com o lugar indicam um enraizamento que justificará resistência a qualquer tentativa de desapossamento. O Ministro da Defesa de Israel passa a viver contiguamente a Salma e, por razões de segurança, o serviço secreto israelense decide que o pomar deverá ser podado. Inconformada, Salma decide desafiar a ordem, levando o problema ao judiciário israelense, que enfrentará como palestina. Obstinada, Salma parece saber que a fonte histórica e a justificação moral da propriedade encontram-se no trabalho. E Salma vivia dos limões que colhia. Sabia, intuitivamente, como se lê num pensador alemão, que a paz sem luta e o gozo sem trabalho nunca existiram, senão no paraíso terrestre. Auxiliada por um advogado palestino ambicioso Salma levará seu problema à Suprema Corte de Israel. Vive, ainda, o preconceito da viuvez, a constante vigilância dos amigos do marido falecido e certa indiferença das filhas e do filho que vivia nos Estados Unidos, onde lavava pratos.  Salma é uma personagem forte, como fortes são as personagens que Hiam Abbas representou em outros filmes, a exemplo de A Noiva Síria e de O Visitante. O filme tem fortíssimo conteúdo jurídico na medida em que explora o eterno embate entre razões de Estado e interesse particular. A solução da Suprema Corte de Israel revela-nos o que chamaríamos de ponderação ou de princípio da proporcionalidade, e a reação de Salma indica-nos que o direito não pode ser mera teoria, mas algo que vive e que é concreto. Filme imperdível para interessados em questões jurídicas.

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Maus Hábitos

Diretor: Simon Bross

Título original: Malos Hábitos

Elenco: Elisa Vicedo

Ano de produção: 2007

País de produção: México

Gênero: Cinema latino-americano

Duração: 93 m

 Se Shakespeare ambientasse seu Hamlet nos dias de hoje o grande dilema não seria o célebre ser ou não ser. O poeta e dramaturgo inglês indagaria se a questão não seria comer ou não comer. É essa dúvida, comer ou não comer, que permeia este delicioso, inteligente e ousado filme mexicano. São quatro estórias que se comunicam e que subsistem numa narrativa que as torna uma estória única. Todos os personagens têm distúrbios alimentares: a freira (formada em medicina) que imaginava parar a chuva com um jejum religioso; a mãe de família que beirava a inanição; sua filha criança, que carregava a pecha de obesa, e que vivia em clínicas e médicos; o pai, professor de arquitetura, que se relacionou com uma aluna peruana, provavelmente porque se apaixonaram por este ato tão humano, que é o comer. Na cama, entre beijos e abraços, compartilhavam também tortas e quitutes. Tem-se um confronto épico entre a estética do corpo esguio e o prazer incomensurável que a gastronomia nos concede. A luta é mediada por uma ética que condena ambivalentemente a vaidade e a gula. Se esta última é um pecado capital, aquela primeira é condenada pelo Eclesiastes: vaidade, vaidade, afinal o homem é só vaidade…

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