Lanternas Vermelhas

Diretor: Zhang Yimou

Título original: Da hong deng long gao gua

Elenco: Li Gong, Jingwu Ma, Saifei He

Ano de produção: 1991

País de produção: China

Gênero: Drama

Duração: 125 m

 Dirigido por Zhang Yimou, Lanternas Vermelhas é um dos mais aclamados filmes chineses da década de 1990. Yimou, um dos principais diretores do cinema chinês contemporâneo, também é conhecido pela organização do espetáculo de abertura das Olimpíadas da China em 2008. Yimou ainda dirigiu O Clã das Adagas Voadoras, A Maldição da Flor Dourada, entre tantos outros filmes de qualidade. Tem como protagonista principal Li Going, que participou da maioria dos trabalhos seguintes de Yimou. Filha de um professor de economia, Li foi a primeira atriz chinesa a aparecer na capa da Revista Time. Li sonhava em ser cantora. Também fez muito sucesso com o filme Adeus minha Concubina. Lanternas Vermelhas é filme ambientado na década de 1920, quando a China vivia a transição da era imperial (a dinastia Qing foi deposta em 1911) para uma experiência republicana. O filme denuncia a condição na mulher no contexto histórico chinês. No pano de fundo, resquícios do feudalismo se dissolvem ao logo do conflito entre nacionalistas e comunistas, que terminou com a vitória desses últimos, em 1949. O conflito entre tradição e necessidade de reformas, que parece marcar a maior parte da história chinesa, e que se matiza como o mais intrincado problema cultural daquele país, está no centro deste excelente filme de Yimou. Não é por acaso que a personagem principal era uma jovem universitária de 19 anos. Ela abandonou os estudos, depois da morte do pai, por determinação da madrasta, casando-se com Chen Zuogian, um senhor feudal de meia idade, que mantinha ainda outras três esposas, em seu imenso castelo. É nesse simbólico espaço que se desdobraram os inusitados acontecimentos sugeridos por este filme inquietante.

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Feliz Natal

Diretor: Selton Mello

Elenco: Leonardo Medeiros, Graziella Moretto, Lúcio Mauro, Darlene Glória, Emiliano Queiróz

Ano de produção: 2008

País de produção: Brasil

Gênero: Drama

Duração: 100 minutos

 O reencontro com nossas origens sempre significa um reencontro com nós mesmos. A experiência, no entanto, exige que deixemos nosso passado, e que, ainda que circunstancialmente, busquemos novas experiências. É este o profundo tema filosófico que o mineiro Selton Mello (agora diretor) trata em Feliz Natal. O enredo centra-se em Caio, representado por Leonardo Medeiros. O personagem carrega um trauma, que o filme não revela; apenas dá pistas, sugerindo homicídio ou acidente de automóvel. Caio visita a família numa festa de Natal. Caio enfrenta o pai, protagonizado por Lúcio Mauro, que não o tolera. O pai vive com uma moça muita mais nova do que ele, e que chama de minha indiazinha. A mãe de Caio, protagonizada por Darlene Glória, é depressiva e vive a base de barbitúricos. A família é a síntese da família desencontrada, e que se encontra em todos os lugares. Os tipos que desfilam qualificam um pouco do que há em todos os lugares: o tio problema desempregado, o adolescente que mal consegue falar um português inteligível, a criança embasbacada pelas informações que colhe na internet, o chefe de família que vê a família se desintegrar, a mulher fogosa sedenta do que nem ela mesma bem sabe. A atuação de Leonardo Medeiros é sublime. O filme toca e sacode com todos quantos um dia nos afastamos de nossas origens e buscamos novos horizontes. Lembra-nos, no entanto, de que nos carregamos, para onde vamos. Imperdível.

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É proibido fumar

Direção: Anna Muylaert

Elenco: Glória Pires, Paulo Miklos, Marisa Orth, Pitty

Ano de Produção: 2009

País de Produção: Brasil

Gênero: Cinema brasileiro

Duração: 85 m

 Glória Pires é a professora de violão que mora sozinha, que nunca se casou e cuja vida gira em torno de problemas muito medíocres, a exemplo da disputa com a irmã sobre um sofá deixado por uma tia que morreu. Paulo Miklos (vocalista dos Titãs) é o novo vizinho. O romance que inevitavelmente ocorre é temperado por tudo quanto é comum e trivial. Há também um pequeno drama pessoal que parece ser o fio condutor da estória: a personagem vivida por Glória Pires se propõe a deixar de fumar. A parte musical é muito bem feita, cheia de referências e alusões. A rápida participação de Pitty, logo na primeira cena, é uma pista do que virá pela frente. A cena de Paulo Miklos tocando samba numa churrascaria é antológica. O filme vale muito por um gravíssimo problema moral que apresenta, e que parece não resolvido. Tem-se a impressão que o filme não acabou. E é este fim que não ocorre o que de melhor a diretora Anna Muylaert nos provoca além, naturalmente, das perfeitas caracterizações de Glória Pires e da insuspeita dramaturgia de Paulo Miklos, que parece tão à vontade. Trata-se de filme brasileiro cheio de graça e de circunstâncias triviais que vivemos, e que não percebemos, exceto quando provocados, em outro contexto, que não o cotidiano que nos parece absolutamente normal. Há uma anormalidade nas entrelinhas da normalidade da trama.

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Bubble

Direção: Eytan Fox

Título original: The Bubble

Elenco: Ohad Knoller, Daniela Virtzer, Yousef Joe Sweid

Ano de Produção: 2006

País de Produção: Israel

Gênero: Drama/Romance

Duração: 117 m

 Angustiante. Não se tem bem a certeza se o diretor Eytan Fox explora a questão do homossexualismo ao limite, tendo o conflito entre palestinos e judeus como pano de fundo, ou se o tema central do filme é o conflito árabe-judeu, com fortes referências ao homossexualismo no Oriente Médio. No argumento, um grupo de amigos israelenses vive num apartamento em Tel Aviv. São dois rapazes homossexuais e uma moça casadoura. Esta começa a acreditar que não há homens que querem relações sérias, por causa das experiências que viveu. Noam, um dos colegas de apartamento, serviu no exército israelense na fronteira. Lá conheceu um palestino, Ashraft, por quem se apaixonou. E a paixão foi correspondida. Na medida em que a relação entre Noam e Ashraft se torna séria, questões políticas apresentam mais um ingrediente de impossibilidade para o inusitado casal.  O diretor do filme denuncia as incompreensões da condição humana. Os caracteres do filme parecem marcados pelo destino, em face do qual a luta pelas opções pessoais e políticas é um nada de escolha privada e um tudo de opções públicas, com as quais não concordam, mas nos limites das quais se desdobram suas vidas cheias de incompreensão e de angústia.

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Os homens que encaravam as cabras

Diretor:  Grant Heslov
Título original: The men who stare at goats

Elenco: George Clooney, Jeff Bridges, Ewan McGregor, Kevin Spacey.

Ano de produção: 2009

País de Produção: Estados Unidos da América

Gênero: Comédia

Duração: 94 minutos

Se sua meta não for seu destino você sempre nadará contra a corrente é uma das pérolas de auto-ajuda que um George Clooney todo metafísico anuncia gravemente nos Homens que encaravam as cabras, filme dirigido por Grant Heslov. Trata-se de sátira a episódio real, relativo a um pelotão do exército norte-americano, formado por pessoas com poderes paranormais. O pelotão (ou restos dele) é encontrado no Iraque por um repórter norte-americano de Ann Harbor que amargurava um fracasso, porque abandonado pela mulher, que o trocou por seu editor. A presença norte-americana na Guerra do Golfo é de certa forma ridicularizada também. Os tipos encarnam entortadores de garfos, derrubadores de cabras, prestidigitadores, advinhas, visionários, toda uma trupe de mentes privilegiadas, a serviço da guerra, embora sob a proteção de um imaginário novo exército da terra. Subverte-se o mote; no filme, aqueles que querem a paz, não se preparam para a guerra, preparam-se para ler a mente do inimigo. Nas entrelinhas, a nítida certeza de que o que separa, e supera, o real do ideal, é nossa própria imaginação, que tudo pode.

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Whisky

Direção: Juan Pablo Rebella

Título original: Whisky

Elenco: Andrés Pazos, Mirella Pascual, Jorge Bolani

Ano de produção: 2004

País de Produção: Uruguai

Gênero: Drama

Duração: 99 minutos

 Nada a ver com a dipsomania. Whisky é expressão usada por fotógrafos com o objetivo de provocar o sorriso do fotografado. E o momento da foto simboliza no filme o único instante no qual se posava para a vida, fugindo-se do lugar comum do agir cotidiano. Jacob Köller, fabricante de meias no Uruguai, receberá em sua casa Hermann Köller, irmão que morava no Brasil, que também fabricava meias, e que ia para o Uruguai por causa de cerimônia que seria realizada no túmulo da mãe. Jacob, que era um velho solteirão, combina com Marta, sua empregada na fábrica, que fingiriam viverem maritalmente. Percebe-se conflito intenso entre os irmãos, embora mediado por tratamento recíproco de muito respeito. Hermann era progressista; entusiasmava-se com mudanças. Jacob era a própria expressão da acomodação e da falta de ânimo para com qualquer coisa na vida. Embora de modo muito discreto, o enredo lembra-nos, na essência, o conflito entre os irmãos no imaginário de Machado de Assis em Esaú e Jacó. Entre os dois irmãos Marta reconhece-se como pessoa, e reconhece o total descaso de seu patrão para com a vida. O filme intriga. Mas não empolga. Como Jacob, um enigma. Um tipo vegetativo. Daqueles que passam pela vida sem que nada ou ninguém os perceba. Nada deixam. E nada levam. Nada criam. Passam. Simplesmente. Andrés Pazos, que protagonizou Jacob, morreu em 2010. Era espanhol. O diretor, Juan Pablo Rebella, faleceu em 2006, com 32 anos de idade. Era uruguaio. O filme levou prêmio da crítica internacional no Festival de Cannes de 2004.

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A história oficial

Direção: Luis Puenzo

Título original: La historia oficial

Elenco: Norma Alejandro, Hector Alteno

Ano de produção: 1985

País de Produção: Argentina

Gênero: Drama

Duração: 112 minutos

 O filme vai direto na jugular de um dos maiores problemas da identidade argentina: os desaparecidos do regime militar. Ambientado em 1983, ano da queda da ditadura, e logo após a experiência da Guerra das Malvinas, A História Oficial tem como núcleo dramático o problema historiográfico: quem escreve a História? Certamente não foi o operário que construiu a Tebas das 7 Portas, diria Bertold Brecht. O enredo centra-se em Alicia, professora de História em curso de 2º grau, casada com homem de negócios que teria se beneficiado no tempo da ditadura. Viviam com uma filha adotiva. Marchas, passeatas e campanhas em favor do esclarecimento sobre o desaparecimento de bebês durante os anos da ditadura despertam na professora conservadora dúvidas sobre a história que ensinava e sobre as origens da filha adotiva que tanto amava. Na busca da verdadeira mãe da criança Alicia revê sua concepção de história, de vida, de si mesma, e do próprio marido. E quem assiste ao filme, com o benefício dos anos que se passaram, convence-se, mais uma vez, que a história pode ser muito menos o relato do que realmente ocorreu, e muito mais a versão de quem sobreviveu para contar o que houve. É o relato do vencedor. Ao perdedor, as batatas, já anunciava o ceticismo de Machado de Assis. A História Oficial levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986.

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O Senhor das Armas

Direção: Andrew Niccol

Título original: The Lord of War

Elenco: Nicholas Cage, Ethan Hawke, Bridget Moynahan

Ano de produção: 2005

País de Produção: Estados Unidos da América

Gênero: Drama

Duração: 121 minutos

 Pode ser que os países que mais produzam armas no mundo detenham cadeiras no Conselho de Segurança da ONU. Eventual validade da premissa suscita inversão na abordagem ética em torno do tráfico internacional de armas. Em outras palavras, poderia haver confusão entre repressores e (pouco) reprimidos. Quis custodiet ipsos custodes?, perguntaria Juvenal. É esse o drama que o diretor Andrew Niccol explora no Senhor das Armas; alguém as vende. E o universo deste negociante mefistofélico é o núcleo temático deste filme-denúncia. O drama se desdobra na trajetória de um imigrante russo que vivia nos Estados Unidos, protagonizado por Nicholas Cage, numa de suas mais bem elaboradas interpretações. A frieza como encarava a atividade de traficante de armas é marcante. Um passeio por ditaduras, ditadores, opressores e facínoras da política terceiro-mundista sugere que só há opressão porque está é financiada por alguém. Só há tráfico de entorpecentes porque há consumidores de drogas. Elementar. E só há armas nas mãos de quem não poderia possuí-las porque alguém as vendeu. Elementar, outra vez. O comércio de armas, e de drogas, só pode ser eficientemente enfrentado na medida em que se reprimam consumidores de drogas e sua contraparte negocial: os vendedores de armas. Enfrentar-se o resultado, e não a causa, é tomar-se a parte pelo todo, o efeito pelo motivo. Esta a mensagem deste filme fundamental para compreensão dos dilemas de nosso tempo. Nicholas Cage é sobrinho do diretor Francis Ford Coppola, e seu nome de nascimento é Nicholas Kim Coppola.

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Você é tão bonito

Direção: Isabelle Mergault

Título original: Je vous trouve très beau

Elenco: Michel Blanc, Medeea Marinescu

Ano de produção: 2005

País de Produção: França

Gênero: Comédia romântica

Duração:97 minutos

Então. Uma comédia romântica franco-romena? Possível. E imbatível. Um fazendeiro francês (protagonizado pelo experiente Michel Blanc) perde a esposa. E a única falta que sente é da ajuda da mulher, nas tarefas da casa, e do árduo trabalho. Nada mais. Não há saudade, e nem romantismo. Depois de consultar uma agência matrimonial vai até a Romênia, onde moças se casavam com franceses, para que elas pudessem deixar a miséria. Realista, não? E o fazendeiro mal humorado importa uma nova companhia (interpretada por Medeea Marinescu, geminiana romena), muito mais nova do que ele, e que apresentará a todos como afilhada de um distante parente de sua falecida mulher. Eles simplesmente não combinam. Mas algo no ar os aproxima. Com a metáfora de que a linda romena ganhara uma aposta, no sentido de que ganhar-se um jogo é encontrar alguém que nos ame, conduz-se o filme ao longo de vários desencontros. Estes, no entanto, não são suficientes para nos comprovar que se possa fazer algo contra o destino.

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O visitante

Direção: Tom McCarthy

Título original: The visitor

Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Hiam Abaas

Ano de produção: 2007

País de Produção: Estados Unidos da América

Gênero: drama

Duração: 103 minutos

 Não é a primeira vez na história que o título de uma obra não indique efetivamente o centro da narrativa. Alexandre Dumas usou desta técnica, sublimemente, em Os Três Mosqueteiros. A estória contada não era a de Athos, Porthos ou Aramis; o personagem central era D´Artagnan.  Algo parecido ocorre neste filme singular dirigido por Tom McCarthy. Interessa menos o visitante, e mais o visitado, um professor universitário absolutamente apático e desidioso. Walter, o desinteressado mestre, lembra-nos tantos quantos fazemos o que não gostamos e trabalhamos com o que dificilmente suportamos. Walter é a expressão de quem vive no limite entre o tédio e o lugar-nenhum. Há esperança? Talvez: ainda que espremida entre o desespero da perda de amizades inesperadas, ou de um amor jamais previsto, ou do despertar de uma aptidão artística inusitada. Em O Visitante questões existenciais são colocadas ao largo dos problemas que decorrem da imigração ilegal nos Estados Unidos. Confirma-se que a globalização é metáfora cheia de truques e de trapaças. Se há liberdade para o fluxo de capitais, por que há restrições para o movimento de pessoas? E tudo, sob o símbolo da liberdade, cristalizado na iconografia norte-americana da estátua famosa. O Visitante é um filme absolutamente cativante. Não se sabe para onde vai a narrativa, são muitas estórias, que se encontram numa só: o desencontro. O diretor nos surpreende: sonhos não vividos, oportunidades perdidas e expectativas frustradas são os ingredientes que fazem de O Visitante um filme absolutamente diferente e angustiante. E imperdível.

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